Há várias formas de juntar bons sistemas de som: com base na lógica tecnológica, no orçamento ou na sorte. E depois há aqueles pares que parecem estar ali mesmo à espera de um telefonema para os juntarmos.
Foi o que aconteceu com este par franco-britânico. Recebi um telefonema de Delfin Yanez: "Tens de ouvir as novas Monitor Audio Bronze 50 7G! OK, acedi eu, mas vais ter de mandar também um amplificador a condizer, porque as MA50 pedem um amplificador com corrente e controlo acima do que o tamanho sugere, segundo o meu colega Paul Miller, da Hi-Fi News".
E foi assim que, por feliz acaso, juntei nesta dupla avaliação o amplificador integrado híbrido Advance Paris A8 APEX 30th Edition (€1.990), comemorativo dos 30 anos da marca; e as colunas monitoras de suporte Monitor Audio Bronze 50 7G (€600/par), uma marca com mais de 50 anos, que marcou, passe a redundância, a minha carreira de crítico, desde os tempos de Mo Iqbal, o visionário que apostou nos cones de metal para os altifalantes contra tudo e contra todos.
Um encontro no qual juntei um francês, que usa lenço de seda com perfume de válvulas, e uma inglesa sedutora, de saltos altos, com um ritmo e um sentido dramático de palco que vão muito para além da sua pequena estatura, tal como a italiana Meloni.
É um encontro franco-britânico entre duas personalidades que promete ser interessante, mesmo antes da festa começar. Porque, no fundo, é um encontro entre dois produtos de culturas distintas.
Com este par na sua sala, não vai ter só bom som hi-fi; vai ter presença, postura, charme e… algum choque cultural.
Dupla franco-britânica
O A8 APEX é um amplificador híbrido de estilo retro, exibindo VUímetros brancos banhados pela incandescência das válvulas ECC81, que espreitam curiosas na janela do primeiro direito, mas com todas as conveniências do mundo moderno.
As Bronze 50 7G são colunas compactas, bem britânicas, que já vão na 7.ª geração e têm um som maior do que a sua discreta estatura sugere.
O truque aqui consiste em obter a soma das partes negociando com temperamentos distintos. Mas primeiro é preciso conhecer os intervenientes para assim chegar a uma união de facto, e não apenas a um casamento de conveniência.
Um amplificador francês, que usa lenço de seda com perfume de válvulas.
Advance Paris A8 APEX 30th Edition
O A8 APEX é o modelo de entrada da nova linha comemorativa APEX da Advance Paris. Mas atenção: a designação de ‘modelo de entrada’ não faz justiça ao nível da engenharia e, muito menos, à ambição visual do aparelho. Não houve aqui a tentação de despojá-lo da personalidade da marca para vendê-lo mais barato.
As ideias-chave da Advance estão cá todas: válvulas no andar de prévio, transístores no andar de potência e aquele gosto francês pelo luxo visual. Na edição dos 30 anos, o A8 Apex surge vestido de preto, com VUímetros brancos de alto contraste em vez do azul habitual da casa. Digamos que vestiu o ‘smoking’ preto e pôs um laço de seda branca para ir à festa de aniversário da Advance.
A potência declarada é de 2 x 76 W a 8 ohms e 2 x 110 W a 4 ohms, recorrendo a válvulas ECC81/12AT7 na secção de pré-amplificação e a um andar de potência a transístores em Classe A/B, alimentado por um transformador toroidal de 240VA. Há ainda um modo High-Bias, comutável, que eleva a polarização para estender o funcionamento em Classe A.
O Advance A8 Apex manteve intacta a convicção da marca de que é possível conciliar ‘romance’ e ‘conveniência’.
Mas o que torna o A8 Apex tão especial não é a sua topologia híbrida, que não tem nada de revolucionário, pois faz parte do seu ADN, é ter mantido intacta a convicção da marca de que é possível conciliar "romance" e "conveniência". Portanto, apesar da aparência clássica, é um integrado moderno, que oferece:
- Oito entradas analógicas RCA, incluindo MM phono
- Duas entradas coaxiais, uma óptica, uma USB para áudio de computador
- HDMI eARC com CEC, permitindo ligar o amplificador quando se liga a TV e controlar o volume a partir do telecomando do televisor
- Pre-out, amp-in, saída para subwoofer, record out e trigger out
- Controlo de tonalidade, balance e loudness
- Uma saída frontal de 6,3 mm para auscultadores
- Bluetooth opcional via módulo A-BTC
- Quase todas as funções podem ser comandadas remotamente ou pressionando e girando o botão de volume.
Até os 30 segundos de aquecimento prévio das válvulas (Warm-Up), em contagem decrescente no visor, dão uma certa sensualidade por antecipação à audição, como quem nos diz que vale a pena esperar pelo que é bom.
No plano digital, o A8 APEX vem equipado com um ESS Sabre ES9018, assistido por reguladores ES9312, aceitando PCM até 24/192 pelas entradas coaxial e ótica, e PCM 24/192 mais DSD64/128 via USB assíncrona com XMOS.
Nada de radical, portanto. Apenas um DAC muito competente, que não está lá só para constar na ficha técnica. Como fonte, utilizei um streamer Bluesound Node Icon, ligado por cabos RCA (sinal analógico) e, ao fazer o bypass do DAC do Node Icon via cabo USB (sinal digital convertido no A8), ganhei textura, corpo e espacialidade. Vale o que vale. Mas é um bom sinal; passe o trocadilho.
Só tenho pena de que o A8 APEX não recorra a uma secção de auscultadores mais sofisticada, como a do A12, que permite ajustar o ganho e a impedância de saída. Em muitos auscultadores, uma impedância de saída mais baixa tende a oferecer melhor controlo e menor desvio tonal (ler o teste aqui). Mas a Advance tinha de cortar em algum lado, num modelo de entrada. E não cortou no essencial, cortou no trivial.
Por um punhado de euros
Por exemplo, a iluminação do display pode ser reduzida, mas não apagada, o que pode ser inconveniente quando se utiliza o A8 como amplificador de som da TV via HDMI ARC: dois ecrãs são visualmente incompatíveis entre si. Além disso, não possui entradas XLR nem comutação entre os terminais de saída das colunas A e B. Por último, o Bluetooth é opcional. Cada leitor avaliará por si mesmo se isto é trivial ou essencial.
Por um valor um pouco inferior a 2 mil euros, considero os poucos compromissos aceitáveis, até porque o dinheiro é investido onde deve ser investido: na amplificação, no DAC e no luxo francês do design.
O dinheiro foi investido onde devia ser investido: na amplificação, no DAC e no luxo francês do design.
Quanto ao som, o objetivo é avaliá-lo em conjunto com a britânica MA 50 7G. Mas deixo-vos já com uma breve avaliação geral: macio, quente, sem ser enfadonho, boa dinâmica, com grave voluntarioso, detalhe q.b., com ligeira ênfase no agudo, que se vai desvanecendo com o tempo, e excelente palco sonoro, com boa reprodução da profundidade e planos frente-trás bem definidos.
E ainda a notável reprodução da voz humana, sobretudo a masculina, com um toque de sibilância que soa menos óbvia a cada nova audição e, creio, deve-se, em parte, às Bronze 50 7G: os tweeters de metal precisam ser "polidos" com tempo e paciência.
Digamos que o A8 traz a seda e as MA50, o aço. Entre os dois, reside essa rara possibilidade de equilíbrio — e o equilíbrio, no hi-fi como na diplomacia, é muitas vezes o lugar onde se assinam os acordos mais memoráveis.
Num mundo em que a razão conta mais do que a emoção, não ser perfeito já não é um defeito – é uma virtude.
O A8 não é adepto da atual busca forense pelo SINAD perfeito. Pertence à nobre escola de desenho de amplificadores que prefere a graciosidade ao brilho do holofote.
Monitor Audio Bronze 50 7G - modernidade clássica.
Monitor Audio Bronze 50 7G
A delegada enviada do Reino Unido à cimeira mostrou-se compacta, irreverente e inesperadamente combativa, sem perder o charme da aristocracia. Como qualquer cinquentona, já sofreu algumas melhorias significativas para continuar bela e em forma:
Nesta sétima geração, a Bronze 50 foi claramente repensada. Passa a assentar num woofer/médio C-CAM de 6 polegadas e num tweeter C-CAM Gold Dome de 25 mm, ambos integrados na UD waveguide II da Monitor Audio. A caixa usa um baffle frontal em contraplacado de 18 mm, acoplado a uma estrutura em MDF; no painel traseiro encontra-se um pórtico bass-reflex HiVe II e terminais duplos para bicablagem.
A sensibilidade oficial é de 86 dB, a impedância nominal é de 8 ohms, com mínimo de 4,0 ohms a 200 Hz, e a resposta em frequência declarada é de 41 Hz a 30 kHz. A frequência de corte passou de 2500 Hz para 3000 Hz.
Trocando isto por miúdos:
A geração 7G introduz um altifalante de graves/médios maior do que o da Bronze 50 6G, um sistema magnético revisto, uma bobina de maiores dimensões, um tweeter mais rígido, um crossover reformulado e uma guia de onda concebida para melhorar o alinhamento temporal e a direcionalidade.
As Bronze 50 TG têm um grave do caraças!
Grelha de filigrana de padrão hexagonal de proteção do tweeter – linda, como um véu de noiva!
Até a grelha de filigrana de proteção do tweeter – linda, como um véu de noiva! – se integra visualmente no padrão hexagonal da guia de onda côncava, com um mínimo de obstrução. O resultado é uma coluna compacta que soa menos comprimida, menos direcional e de aspeto menos “económico” do que as antecessoras.
As MA Bronze 50 7G têm um grave do caraças! E podíamos ficar já por aqui. Para uma coluna compacta, descer aos 40Hz (-6dB/200Hz), mesmo com a ajuda do pórtico reflex, é obra. Mas não é só isso. O grave não tem só extensão, tem articulação, definição e ritmo.
Nota: Se as colocar numa estante ou muito próximo da parede, pode ter de colocar os tapa-pórticos de espuma para evitar o excesso de grave. Mas basta afastá-las 20 cm para não ter de o fazer, o que seria uma pena, porque o pórtico está muito bem sintonizado.
A MA50 é uma coluna rápida. E é o grave que define o corpo da gama média, tornando as vozes masculinas (e o piano!) tão reais, tão presentes e tão inteligíveis, pois a ressonância do tubo reflex (1 kHz) está muito bem controlada.
Sim, o agudo tem um ‘piquinho’ que enfatiza a sibilância em certas gravações. Mas já vimos que até isso se desvanece com o uso.
Tonalmente, este é o melhor monitor de suporte da MA de sempre.
Leitura do tratado de cooperação
Reuni com o Advance A8 APEX e as MA Bronze 50 7G, numa sala à parte, e deixei o algoritmo da Roon correr sem rédeas no Node Icon. Primeiro, ouvi Jennifer Warnes em “Way Down Deep”, do álbum “The Hunter”. O algoritmo sabe do que eu gosto.
Como o nome da faixa indica, o som parece brotar do chão da sala, como se emanasse das entranhas do sistema, criando uma atmosfera de tensão e desejo, sustentada por uma base rítmica quase tribal, com Lenny Castro e Paulinho da Costa nas percussões: congas, dumbek, shakers e chocalhos e outros pequenos instrumentos de pele e sementes, o que ajuda a explicar a sensação de groove orgânico, texturado, cheio de ar e de matéria. Esta faixa testa a capacidade do sistema de reproduzir camadas rítmicas, impacto, textura e detalhe.
A voz de Warnes soa profunda e enraizada na terra, com alguma “huskiness”, que é uma forma nobre de rouquidão. A percussão é o corpo; a voz de Jennifer Warnes é a alma — rouca, profunda e perigosamente sedutora.
Seguiu-se “Slow Learner”, do álbum “Down The Road Wherever”, de Mark Knopfler, que aqui troca a guitarra pelo piano, assumindo o papel de crooner, com o peso grave da voz, sustentada pelo peito e a alma. É uma voz com sabor a madeira, que ressoa em surdina numa intimidade plácida e sussurrada, tal como o inesperado solo de trompete. Nas MA50, a voz de Knopfler soa grande, não no sentido operático, mas no narrativo, de quem conta uma história sem pressa.
Agora estou a ouvir “Colour to The Moon”, do álbum do mesmo nome, de Allan Taylor, que também nos conta uma história, com uma voz de timbre grave e sereno, quase melancólica, só perturbada por alguma sibilância. A guitarra acústica soa maior do que a vida, sublinhada a traço grosso pelo baixo, que desce aos 40 Hz, recortada pelo saxofone soprano de Beo Brockhausen e pontuada pelo “low whistle”. Há espaço. E há silêncio útil, fértil em ambiência.
“These Bones”, pelos Fairfield Four, do álbum “I Couldn’t Hear Nobody Pray”, é mais do que gospel, mais do que harmonização vocal. É um teste da capacidade das colunas de som reproduzirem diferentes timbres da voz masculina: os solistas principais narram a história, o tenor estabelece o grau de claridade da linha melódica; o barítono dá corpo ao fraseado; e o espantoso baixo Isaac Freeman é a trave mestra que sustenta todo o edifício vocal, com graves cavernosos que não assustaram as MA50. Já ouvi colunas com o dobro do tamanho falharem aqui.
“Nightbird”, do álbum póstumo com o mesmo título, cantada ao vivo no Blues Alley, em Washington, por Eva Cassidy, cuja incrível voz tem a capacidade de soar ao mesmo tempo poderosa e delicada, clara e doce, autoritária e terna. A gravação ao vivo sofre de alguma sibilância na voz e de ênfase nos pratos, que as MA50 não perdoam, mas todos os instrumentos soam claros e bem definidos: desde o piano de Lenny Williams até à guitarra de Keith Grimes, ao baixo de Chris Biondo e à bateria de Raice McLeod, numa altura em que Eva parecia já saber que ia morrer.
Podíamos ficar aqui toda a noite. Mas vá antes à Delaudio ouvir este duo franco-britânico. E leve os seus discos. Ou a sua Playlist. Vai ficar surpreendido.
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