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Editorial

A Ressureição do CD

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O CD foi anunciado como a salvação da música gravada. Tal como Cristo, acabou por ser crucificado pelo mercado e ressuscitou agora, aproveitando a moda dos formatos físicos, como o LP e a fita magnética.

Ironicamente, isto acontece na era da música desmaterializada e do streaming. 

Embora, em 2002, eu tenha previsto o regresso do LP ao poder, como resultado das lutas intestinas entre SACD e DVD Audio, num artigo intitulado ‘A Dificuldade da Escolha’.

Mas andava eu a arrumar os meus discos quando reparei que tinha uma boa dezena de ‘samplers’ de discos óticos de vários formatos, que acabaram por não vingar no mercado audiófilo.

São despojos das minhas viagens anuais a Las Vegas, entre 1986 e 2013, para cobrir todas as novidades do áudio high-end — o único motivo que me levava lá e que acabou por ser engolido pela eletrónica de consumo: das panelas, frigoríficos e televisores inteligentes até, mais recentemente, aos carros autónomos e aos robôs humanóides.

Fui ouvi-los outra vez, mais por curiosidade do que levado pela nostalgia, no meu leitor Universal Oppo 95EU, já descontinuado, e o único que ainda consegue reproduzi-los a todos (menos o MiniDisc, claro).

E pensei: eis um tema interessante para uma das ‘Saturday Mornings» da Imacustica: comparar o som das variantes existentes em disco ótico, para perceber por que motivo foram sendo abandonadas, deixando apenas o SACD, hoje moribundo, apesar de os mais raros se venderem a bom preço, e o CD, que ressuscitou agora, aproveitando a boleia do vinil.

 

Tenho na minha discoteca um Messias, de Händel, dirigido por John Eliot Gardiner, com o Monteverdi Choir e os English Baroque Soloists, que adoro ouvir. É um CD Philips, da coleção Digital Classics. Um disco perfeitamente normal, segundo as normas do Red Book, que me inspirou esta história de superação.

 

O nascimento segundo o Livro Vermelho

O CD chegou ao Japão em 1982 e, um ano depois, à Europa. Os leitores eram caros e o catálogo muito limitado. Mas acabaria por se tornar a principal fonte musical doméstica.

Eduardo Rodrigues foi o primeiro português a ter um leitor-CD da Sony. Ainda me lembro de ir lá à casa dele ouvir CDs, que não chegavam aos calcanhares dos LPs da Sheffield Labs, reproduzidos num gira-discos Forsell de braço tangencial.

Os 44,1 kHz permitiam reproduzir frequências até aos 22,05 kHz, com a margem necessária para a atuação dos filtros digitais; os 16 bits ofereciam uma gama dinâmica teórica da ordem dos 96 dB, cerca de 6 dB por bit. Tecnicamente perfeito. Musicalmente, nem por isso. Os primeiros leitores nem sequer aproveitavam todas as possibilidades da tecnologia. E depois, havia o jitter de que ninguém ainda suspeitava.

 

1992 – MiniDisc, o CD de bolso

Dez anos depois, a Sony apresentou o MiniDisc. Os primeiros aparelhos chegaram ao mercado japonês em novembro de 1992.

Na fotografia estão dois exemplos da minha coleção: Ave Mundi Luminar, de Rodrigo Leão & Vox Ensemble, e Oxygene 7–13, de Jean Michel Jarre. Discos pequenos, protegidos por uma caixa rígida, feitos para serem manuseados sem tocar na superfície.

O MiniDisc não pretendia superar a resolução do CD. Pretendia levar uma experiência próxima da sua qualidade para um suporte mais pequeno, portátil e, na versão gravável, também reutilizável.

Para isso, utilizava ATRAC — Adaptive Transform Acoustic Coding. Em vez de conservar integralmente o PCM de 44,1 kHz/16 bits, aplicava compressão com perdas, recorrendo às propriedades da audição e ao ‘efeito de máscara’ para reduzir apenas a quantidade de informação necessária. O objetivo original era comprimir o áudio para cerca de um quinto do bitrate do CD, com degradação perceptual mínima.

 

1998 — O pecado da gula: 96/24

A capa deste disco da Chesky anuncia Introducing 96/24 Technology. A Chesky esteve entre as primeiras editoras a aproveitar o DVD-Video para distribuir PCM estéreo a 96 kHz/24 bits, antes da implantação comercial do DVD-Audio. Não era preciso inventar um novo suporte físico: o DVD já oferecia essa possibilidade.

A frequência de amostragem mais elevada aumentava a largura de banda disponível e a margem de atuação dos filtros. Os 24 bits reduziam o ruído de quantização teórico e ofereciam uma margem particularmente útil durante a gravação e o processamento.

 

1999 — O Super Audio CD e a nova aliança

A Sony e a Philips, que tinham cooperado no desenvolvimento  do CD, apresentaram o SACD como uma nova etapa. O lançamento comercial no Japão ocorreu em maio de 1999.

Na base estava o DSD, cuja apresentação mundial assisti em S. Francisco, dois anos antes do lançamento do SACD. Desta vez, não se tratava apenas de aumentar os números do PCM. O SACD utilizava DSD: 1 bit a 2,8224 MHz.

Nota: O SACD foi apresentado pelo embaixador Mori San, como um contributo cultural do Japão à Europa.

O DSD representa o sinal por meio da densidade de impulsos e utiliza noise shaping para deslocar grande parte do ruído de quantização para frequências ultrassónicas. Mesmo aqui existem filtros e compromissos.

Os SACD são híbridos, isto é, podem ser reproduzidos como CD num leitor convencional ou como SACD num leitor dedicado.

Este SACD da Sony, com Seiji Ozawa e a Mito Chamber Orchestra, que identifico na minha coleção como não-híbrido, representa a rutura: contém a área de alta densidade SACD, mas não uma camada de CD convencional. Num leitor-CD, não toca.

Talvez fossem estas contradições e hesitações que levaram o SACD a nunca levantar voo, como eu chamei a atenção num artigo com o título: ‘SACD outra vez’.

 

2000 — DVD-Audio: a multiplicação dos canais

O DVD-Audio optou por manter o PCM, ampliando as possibilidades: até 192 kHz/24 bits em estéreo ou 96 kHz/24 bits em 5.1. Para acomodar o volume de dados, podia recorrer a MLP — Meridian Lossless Packing, compressão sem perdas que permite recuperar exatamente o PCM original. Dizem.

Este sampler da AIX da minha coleção anuncia precisamente 96/24 e 5.1. A capa acrescenta Tribrid: DVD-Audio, DVD-Video e DVD-ROM. Uma tentativa de disponibilizar conteúdos em diferentes formatos de acesso.

A AIX também apostava na produção de gravações a 96 kHz/24 bits com misturas estéreo e surround. O multicanal trazia, contudo, uma mudança que não deve ser confundida com resolução. Acrescentar colunas traseiras altera a apresentação espacial. Aumentar a frequência de amostragem altera as condições de representação do sinal. São vantagens diferentes, que podem existir separadamente ou em conjunto.

 

2001 — O SACD em ‘surround’

Este Jazz at the Pawnshop híbrido multicanal, identificado na minha coleção como edição de 2001, apresenta uma solução mais abrangente. Também tenho o SACD multicanal de Dark Side of The Moon. Bem melhor este, remasterizado por James Guthrie.

O SACD híbrido reúne uma camada de CD e outra de alta resolução. Um leitor de CD utiliza a primeira; um leitor SACD consegue aceder à segunda. A compatibilidade não resulta de um leitor antigo aprender a descodificar DSD, mas da existência de duas camadas distintas.

Também aqui a gravação original é anterior ao suporte. Transferi-la para DSD não a torna uma captação em DSD. A qualidade depende da fonte utilizada e do trabalho realizado durante a transferência. Que podia ter sido melhor. Continuo a preferir o CD original.

Nota: Em 2003, eu pensava que o SACD tinha vindo para ficar, num artigo com o título ‘O SACD veio para ficar’.

 

2003 — DTS: o nome não conta a história toda

O DVD-Audio Music Sampler — Volume Two, da DTS Entertainment, reúne Queen, Frank Zappa, Crosby–Nash e outros artistas. É necessário distinguir o PCM/MLP da área DVD-Audio, sem perdas, do DTS convencional, com perdas, e do DTS 96/24.  E não vale a pena compará-los entre si, porque as matrizes também podem ser diferentes. É como vinho de colheitas e de regiões diferentes.

 

2008 — Alta definição, mais uma vez

Nesta geração, é importante distinguir o DTS-HD High Resolution Audio, com perdas, do DTS-HD Master Audio, sem perdas. Este último utiliza uma extensão do núcleo DTS para permitir a recuperação do PCM original com descodificação completa. A tecnologia, porém, ilustra outro avanço real: transportar áudio multicanal sem a perda de informação dos sistemas anteriores.

 

2011 — HRx: música em formato WAV

O HRx Sampler 2011, da Reference Recordings, pertence a uma iniciativa lançada em 2008: ficheiros WAV estéreo a 176,4 kHz/24 bits. Não era DVD-Audio, era DVD-R. O suporte transportava ficheiros para reprodução num computador ou num servidor compatível. Esta era talvez a mudança mais significativa. Podia-se copiar o conteúdo e guardá-lo no disco rígido.

O sucessor do CD começava a dispensar o próprio disco. Adivinhava-se o streaming. O disco só era compatível com os leitores da Oppo.

 

2013 — Pure Audio: promessa de pureza

A Universal voltou ao suporte físico com High Fidelity Pure Audio, utilizando Blu-ray para álbuns de alta resolução. A iniciativa procurava aproveitar leitores já existentes, em vez de exigir a compra de novos aparelhos.

O Blu-ray oferecia capacidade quase ilimitada. Faltava convencer o público de que precisava comprar a mesma música novamente num formato diferente. Não conseguiram. Nem com a 30ª versão de ‘Kind Of Blue’.

 

A paixão segundo Gardiner

Não foram os novos formatos, por si só, que crucificaram o CD. As feridas mais profundas vieram da mudança de hábitos: ficheiros, downloads, leitores portáteis e, finalmente, o acesso a milhões de músicas sem possuir um único disco.

Os sucessores de alta resolução contestaram a perfeição do CD. O streaming contestou a sua necessidade.

Agora, o CD regressa às conversas e às coleções de audiófilos que redescobrem o prazer de escolher uma edição, abrir uma caixa e ouvir um álbum. Há quem prefira também o som ao do streaming. Talvez a sua ressurreição comece nessa fé.

Estou a ouvir, pela milésima vez, o Messiah de Gardiner, em CD. Depois de tantos formatos e promessas, o que conta não são os hertz e os bits; é a música. E a interpretação.

Aleluia!

Ressurteição CD Capa


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