thumbnail_3 - 950X225.png
Delaudio950x225
Publicidade


Reviews Testes

Eversolo DAC Z-10: Tudo e Mais Alguma Coisa

Eversolo DAC-10 Andy Wharol Cover.jpg

Read article in English here

 

O Z-10 não se limita a converter zeros e uns em música. Também é um pré-amplificador de referência, com controlo de volume por meio de resistências (R2R), e um amplificador de qualidade para auscultadores, com força para dar e vender. Falta-lhe o streamer; já sei. Mas o Z-10 não pretende ser um tudo-em-um; é, antes, um especialista que atua como um hub digital e analógico.

De negro vestido

O Z-10 chegou-me da China aperaltado numa caixa de alumínio negro, de linhas simples e direitas, com um aspeto de produto industrial sólido, que nem as estrias de dissipação laterais tornam menos austero, exibindo apenas um botão rotativo à nossa direita, que se roda para regular o volume e se pressiona para ligar/desligar; enquanto, no lado esquerdo, surge a novidade de uma saída (única) por jack de 6,3 mm para auscultadores. Já não era sem tempo!

Quando se acende, o mostrador ilumina-se num sorriso largo de luz e de cor e a sala enche-se de vida com uma coleção de irresistíveis VUímetros dinâmicos. Mas o painel IPS de 8,8 polegadas não é só para enfeitar: informa, controla, monitoriza, assumindo-se como um verdadeiro cockpit:

  • Seleção de entradas (USB / AES / óticas / coaxiais / I²S / HDMI ARC/eARC / Bluetooth), sem precisar de andar à procura de botões escondidos;
    • Indicação clara do volume quando utilizado como pré;
    • Estado de lock do sinal digital;
    • Taxa de amostragem e formato (PCM/DSD), para ter a certeza de que está a ouvir o que pensa que está a ouvir;
    • Estado e modo de reprodução/entrada (ex.: ARC/eARC ativo quando a TV entra no jogo);
    • E, conforme a configuração, dados adicionais que ajudam a perceber se estamos a aproveitar tudo o que ele pode dar: filtros digitais, ganho extra, etc.

O ecrã tátil tem blindagem eletromagnética — um pequeno detalhe, mas revelador do cuidado posto na conceção, para quem coloca o Z-10 perto de um ecrã de TV.

Signal Path Display: tudo o que precisa de saber sobre o caminho do sinal.

Signal Path Display: tudo o que precisa de saber sobre o caminho do sinal.

Signal Path Display

A Eversolo chama “Signal Path Display” ao diagrama ao vivo e a cores do funcionamento do Z-10 que mostra todo o percurso do sinal em tempo real: da entrada ativa às saídas (XLR/RCA); do formato e taxa de amostragem ao filtro digital selecionado; do estado do relógio (refiro-me ao master clock), ao bater do coração do circuito R2R de controlo de volume e equilíbrio entre canais, com o respetivo eletrocardiograma dinâmico.

É o tipo de aparelho ideal para quem gosta de mexer e de afinar, sem ter de inventar nem de andar aos papéis — leia-se: sem ter de recorrer ao manual.

Com a Eversolo Control App vá pelos seus dedos.

Com a Eversolo Control App vá pelos seus dedos.

Eversolo Control

Pode navegar no mostrador com o controlo remoto clássico (limitado). Ou com a Eversolo Control (iOS/Android), dependendo do seu ecossistema.

A app controla todas as funções do dispositivo — e, no Z10, isso traduz-se em coisas muito práticas, como selecionar entradas, escolher a porta de saída, ajustar o volume e mexer nas definições (filtros, parametrizações e afins).

Casamento, apartamento

Por fora, o Z-10 funciona como um todo ergonómico coeso, respondendo de imediato às solicitações táteis ou à distância do utilizador.

Por dentro, a filosofia da arquitetura digital/analógica é outra muito diferente: separar para não misturar; isolar para não contaminar. A ideia não é corrigir o ruído no final; é não o deixar entrar. Processadores, FPGA, interfaces USB/I2S, relógios e afins são fontes de ruído de comutação a que o sinal analógico é muito sensível.

No Z-10, a Eversolo apostou em três fontes lineares toroidais independentes: uma para o canal esquerdo, outra para o canal direito e outra para o “sistema” (os circuitos lógicos), mantendo estes blocos isolados entre si.

Ou seja: total separação física e elétrica entre o digital e o analógico e entre os canais esquerdo e direito. E quando isto é feito como deve ser, o resultado prático costuma aparecer naquilo que interessa: um fundo mais negro, maior microdinâmica e uma sensação de ordem quando a música se torna complexa.

A topologia “Fully Isolated Architecture” não é, pois, apenas uma designação bonita criada pelo departamento de marketing da Eversolo. Basta ver como as entradas e saídas analógicas RCA/XLR dos canais direito e esquerdo estão posicionadas no painel traseiro, bem separadas e não ao monte com as digitais, como é tão habitual.

Circuito Duplo de modulador/conversor AKM por canal. (Foto cortesia Eversolo)

Circuito Duplo de modulador/conversor AKM por canal. (Foto cortesia Eversolo)

Simetria total 

A arquitetura dual-mono também é extensiva à secção digital, com módulos AKM independentes por canal: AK4191 (modulador) + AK4499 (conversor) para o canal esquerdo e outro conjunto igual para o direito, numa abordagem balanceada/simétrica, reduzindo o crosstalk e o ruído comum, o que melhora a dinâmica.

Mais do que pode o ouvido humano

Assim, não é por acaso que as medições são de tirar o chapéu: THD+N em XLR na casa dos 0,00008% (-122 dB) e em RCA 0,000097% (-120 dB), com valores de SNR/DNR na órbita dos 124 dB.

Na prática, isto corresponde a uma transparência elétrica muito difícil de ultrapassar, e não há nenhum amplificador ou coluna que chegue sequer perto — muito menos o ouvido humano — pelo que estes números têm um valor meramente académico. Mas dizem muito sobre a competência elétrica do produto.

Osciclador de quartzo de elevada precisão (OCXO)                (Foto cortesia Eversolo)

Osciclador de quartzo de elevada precisão (OCXO) (Foto cortesia Eversolo)

Relógio externo

O Z-10 tem ainda outro argumento pouco comum nesta gama de preços até 2.000 euros: OCXO (oscilador controlado por temperatura), PLL, reconstrução de relógio via FPGA, e ainda entrada para relógio externo de 10 MHz e 25 MHz, para combater esse inimigo silencioso: o jitter. Melhor ainda: as entradas para relógio externo oferecem opções de impedância de 50 Ω e 75 Ω, outro pormenor raro a este nível de preço.

Z-10 Painel traseiro

Z-10 Painel traseiro

O painel traseiro é um maná para quem tem muitas fontes digitais:

  • USB com suporte para alta resolução (incluindo PCM até 768 kHz e DSD512);
    • I²S (IIS) por HDMI, com 8 modos/compatibilidades (o que importa para quem tem transportes digitais, streamers ou leitores com saída I²S);
    • HDMI/eARC, que é a diferença entre “DAC audiófilo” e “DAC que vive bem numa sala real com TV”;
    • AES/EBU, duas óticas, duas coaxiais — redundância útil para quem tem mais de um transporte e não quer andar sempre a trocar cabos. Ótimo para comparações A/B rápidas;
    • Bluetooth Qualcomm (QCC5125) para consumo prático (não é o caminho “purista”, mas é um bom “plano B”. Em muitas casas, é até o “plano A”);
    • E ainda um pequeno detalhe, que muitos só utilizam com gira-discos: o borne de terra/grounding, que pode eliminar o “hum” em sistemas mais complexos.

Nota: o Bluetooth suporta os codecs SBC/AAC — não LDAC/aptX — por isso encare-o como uma conveniência, e não como a última palavra em áudio sem fios audiófilo. No melhor pano cai a nódoa.

Controlo de volume por resistências de alta-precisão (Foto cortesia Eversolo)

Controlo de volume por resistências de alta-precisão (Foto cortesia Eversolo)

Fully Balanced Preamplifier

O Z10 também é um prévio “a sério” para fontes de linha analógicas (RCA e XLR) que permitem trazer para a festa coisas que ainda gostamos de ouvir, como um Tuner FM ou um leitor de cassetes, além da parafernália de fontes digitais.

O andar de pré-amplificação faz parte do conceito global de elevada qualidade e, em vez de reduzir o volume cortando nos bits, utiliza uma rede R2R de alta precisão, com controlo fino e comportamento previsível do volume em passos de 0,5 dB (até 10 dB de ganho) e o equilíbrio entre canais (até 15 dB de diferença) sempre no domínio analógico.
Ou seja: pode ligá-lo diretamente a amplificadores de potência ou a colunas ativas.

O Z-10 é capaz de alimentar até mesmo os auscultadores mais difíceis com uma perna às costas (1W/16/32 ohms!).

O Z-10 é capaz de alimentar até mesmo os auscultadores mais difíceis com uma perna às costas (1W/16/32 ohms!).

Amplificador de auscultadores purista

No painel da frente, a única saída é a do jack de 6,3 mm para auscultadores. Há fabricantes que metem lá uma saída para auscultadores como quem mete um isqueiro no tablier do carro — só porque pode dar jeito um dia.

No Z-10, a audição com auscultadores é tratada como uma função séria, com deteção automática da impedância e dos níveis de ganho, e com a respetiva proposta de ajuste de volume. Em vez do habitual “dá para desenrascar”, o Z-10 é capaz de alimentar até mesmo os auscultadores mais difíceis com uma perna às costas (1W/16/32 ohms!).

Filhos de uma família chinesa feliz. De cima para baixo: Eversolo Play, Luxsin X9 e Eversolo Z-10

Filhos de uma família chinesa feliz. De cima para baixo: Eversolo Play, Luxsin X9 e Eversolo Z-10

Do Luxsin X9 ao Eversolo Z-10

Sempre que visitava o stand da Eversolo, no High-End Show, perguntava à simpática Eki Shaw quando iam lançar um novo DAC/Streamer com saída para auscultadores.
Em 2025, Terry Jiang, da empresa-irmã Luxsin, surpreendeu-me com o DAC/Headamp X9, com deteção automática de impedância e ajuste de ganho, no qual o Z-10 alegadamente se inspirou.

Mas o X9 (ler o teste aqui) também tem funções PEQ e saídas balanceadas para auscultadores (4-XLR e Pentaconn), que foram dispensadas no Z-10 — talvez porque se pretendia, aqui, alcançar a pureza do som por uma via minimalista.

O LAB 12 'Mighty' em modo triodo devolve o sabor e o calor à perfeição laboratorial do Z-10

O LAB 12 'Mighty' em modo triodo devolve o sabor e o calor à perfeição laboratorial do Z-10

Diz-me como soas, dir-te-ei quem és

Por definição, um pré-amplificador não tem som próprio. Deve limitar-se a tocar a música sem lhe tocar — passe o trocadilho.

As fontes, sim, têm um caráter próprio – e as colunas nem se fala, embora a sua “postura” dependa muito do amplificador, pois é ele que segura as rédeas.

Neste contexto, utilizei apenas fontes digitais: exclusivamente o Streamer do Eversolo Play e um transporte universal da Oppo, já descontinuado, mas que tem a vantagem de tocar todos os formatos de discos óticos conhecidos: CD/SACD, Blu-Ray Pure-Audio, DVD-Audio, HR-X, etc.

Como colunas, utilizei apenas monitores compactos: Sonus faber Concertino, Azzolina Quark e Acoustic Energy AE300-2, porque têm a vantagem de maior coerência no campo próximo, e o que se pretende aqui é avaliar o grau de transparência do Z-10. E amplifiquei-as com um amplificador a válvulas LAB12 Mighty — já veremos por quê.

Transparência elétrica

Um componente de áudio com um SINAD a partir de -115 dB é eletricamente transparente. Por transparência elétrica entende-se que deixa passar o sinal sem contribuir com distorção, ruído ou colorações. É o caso do Z-10, cujo SINAD é de -120 dB. Mas se eu o ligar a um amplificador a válvulas de Classe A, com um SINAD de -90 dB (ou menos), embora a distorção seja maioritariamente de 2.ª harmónica, logo benigna para o ouvido humano, parte dessa transparência perde-se na tra(ns)dução.

Em que ficamos? Deixemos de lado a transparência analisada em laboratório e passemos a analisar a transparência acústica durante a audição.

Num sistema verdadeiramente transparente, mergulhamos mais fundo na música, como se o equipamento deixasse de existir — e, de repente, aparece-nos o quadro inteiro: a floresta e as árvores, com tudo o que isso implica, incluindo informação subtil espacial e harmónica. E, no entanto...

(Um sonho) “Que nunca é o que se vê quando se abre a janela”, segundo Alberto Caeiro.

A transparência é muitas vezes confundida com a clareza. Mas são conceitos muito diferentes. Por isso, não há nada como seguir os ensinamentos do já falecido Harry Pearson, fundador da TAS, embora por palavras minhas:

O Mestre Harry pearson dá uma palestra sobre transparência em áudio.

O Mestre Harry pearson dá uma palestra sobre transparência em áudio.

A transparência é uma qualidade mais abrangente do que a claridade; é quase holística. É a capacidade que um sistema tem de funcionar como uma janela limpa — um portal sem véus para a gravação (ou para o evento original) — permitindo ao ouvinte “ver através” do equipamento e chegar ao acontecimento musical completo, com o mínimo de obstáculos pelo caminho. E isto não é apenas uma questão de mais detalhe ou informação: inclui a preservação do espaço (profundidade de palco, ar, bloom ou ambiência de sala), o timbre e a cor tonal naturais dos instrumentos, a dinâmica e aquela sensação preciosa de ausência de neblina eletrónica.

A clareza, por seu lado, é uma noção mais estreita, focada na resolução e na definição: nitidez do detalhe, separação entre instrumentos e vozes, extensão limpa dos agudos, ausência de smearing (arrastamento), de turvação e articulação precisa. O problema é que, quando se exagera na dose, a clareza cobra um preço: perde-se cor, perde-se corpo, perde-se musicalidade. Surge aquele som de “raio-X”, recortado (etched), em que o detalhe salta à vista, mas o timbre fica desbotado, artificial, sem carne nem sangue – linfático, quase.

Ou, citando Fernando Pessoa de novo: “Qualquer coisa do mar, sem ser o mar”.
A estátua de bronze de Fernando Pessoa, no Chiado, Lisboa, com o Z-10 em cima da sua mesa do café.

A estátua de bronze de Fernando Pessoa, no Chiado, Lisboa, com o Z-10 em cima da sua mesa do café.

A virtude e o pecado

O Z-10 custa apenas 1980 euros e é extraordinariamente transparente. Tão transparente que assusta (sobretudo a concorrência). Já o excesso de clareza pode roubar-lhe um pouco de musicalidade; ou, se preferir, de neutralidade. Não nos dá uma visão de Raio-X, nem rouba a carne e o sangue ao som (ver abaixo), mas as cores podiam ser um pouco mais saturadas.

Sim, eu sei que a saturação não passa muitas vezes de coloração, e o Z-10, quando muito, sofre do pecado de omissão, pois não acrescenta nada ao sinal.

Infelizmente, às vezes o que sabe/soa bem ou faz mal à saúde (a nossa e a do aparelho) ou é pecado/má engenharia. A folha clínica do Z-10 fala por si. Por isso, cometi o pecado de o associar a um amplificador a válvulas para condimentar as suas virtudes de transparência e clareza com um pecaminoso tempero de coloração eufónica, leia-se distorção de 2ª harmónica. Mea culpa!

Para ilustrar o seu ponto de vista (ou de audição), Harry Pearson recorria sobretudo a LPs de música clássica bem gravada ao vivo, em registos que preservavam a acústica da sala. Hoje, a maior parte do que ouvimos é produzida em estúdio, às vezes com instrumentos que nem são reais. E agora até temos cantores gerados por IA, que nem sequer existem! Lá se vai a transparência, ou melhor, nunca a transparência do Z-10 foi tão reveladora da verdade!...

O que me leva aos argumentos finais de um verdadeiro advogado do diabo.

Eu sou o JVH e dou a cara pelo que escrevo.

Eu sou o JVH e dou a cara pelo que escrevo.

O Eversolo Z-10 é um DAC/Preamp/HeadAmp para aqueles que querem ouvir o que está no disco, não o que gostariam que estivesse. Se quer comprar um descodificador digital e prévio analógico que lhe mostra a verdade com transparência por menos de €2000 (e até acima): EI-LO!

Para mais informações contacte:

DELAUDIO

IMACÚSTICA

JLM

Eversolo DAC 10 Andy Wharol Cover

Signal Path Display: tudo o que precisa de saber sobre o caminho do sinal.

Com a Eversolo Control App vá pelos seus dedos.

Circuito Duplo de modulador/conversor AKM por canal. (Foto cortesia Eversolo)

Osciclador de quartzo de elevada precisão (OCXO) (Foto cortesia Eversolo)

Z-10 Painel traseiro

Controlo de volume por resistências de alta-precisão (Foto cortesia Eversolo)

O Z-10 é capaz de alimentar até mesmo os auscultadores mais difíceis com uma perna às costas (1W/16/32 ohms!).

Filhos de uma família chinesa feliz. De cima para baixo: Eversolo Play, Luxsin X9 e Eversolo Z-10

O LAB 12 'Mighty' em modo triodo devolve o sabor e o calor à perfeição laboratorial do Z-10

O Mestre Harry pearson dá uma palestra sobre transparência em áudio.

A estátua de bronze de Fernando Pessoa, no Chiado, Lisboa, com o Z-10 em cima da sua mesa do café.

Eu sou o JVH e dou a cara pelo que escrevo.


Delaudio950x225
Publicidade