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O Hificlube.net foi convidado para a apresentação da DALI VEGA em Viena, num evento exterior ao High End Show. Lá chegados, fomos inundados de solicitações e a grandiosidade do certame não nos deu margem para uma escapadinha.
Mas fiquei curioso quando soube que se tratava do primeiro ‘All-in-One’ da DALI, e não de um qualquer fabricante chinês de gadgets ou de produtos de streaming. Embora, ultimamente, a DALI tenha optado por atacar também o mercado do hi-fi acessível com as colunas Kupid e as Sonik. A minha curiosidade durou pouco porque, entretanto, recebi a VEGA na volta do correio.
Prazer em conhecer-te, VEGA
A VEGA é um sistema de uma peça só da DALI. Não é uma soundbar, algo que eu aprendi à minha custa quando a montei sobre uma mesa, por baixo do meu televisor, e não funcionou lá muito bem, porque o som não parecia vir do ecrã.
Claro que tem HDMI ARC e reproduz o som de noticiários, jogos, filmes e concertos. Mas não foi para isso que foi criada, como a DALI faz questão de sublinhar: não há Dolby Atmos, nem altifalantes a apontar para cima, apenas para trás.
Mas tem muitos outros altifalantes.
- À frente: dois tweeters de cúpula mole de 25 mm com ferrofluido de baixa viscosidade e câmara traseira; e dois médio-graves de 4,5 polegadas com cones de fibra de papel e de fibra vegetal.
- Atrás, em simetria acústica, mais dois tweeters e dois médio-graves.
- Nas extremidades, dois radiadores passivos retangulares de 3×6 polegadas. Tudo desenvolvido em casa: altifalantes, amplificação e plataforma DSP — tudo da autoria da equipa de engenharia da DALI.
Este miolo eletrónico vem montado numa caixa de madeira com acabamento em carvalho natural (Dark Oak e Natural Oak), extremidades em metal e forrado com tecido verdadeiro. Mede 683 mm de largura, 143 mm de altura, 243 mm de profundidade; e pesa apenas 8,7 kg, podendo ficar sobre uma cómoda, numa estante, suspenso na parede na horizontal ou pendurado na vertical. O capricho é seu.
Lá dentro, há 400 W de potência em Classe D, distribuídos de forma democrática: oito canais de 50 W. A resposta em frequência declarada é de 32 Hz a 22,7 kHz (±3 dB), com SPL máximo de 110 dB a um metro. A frequência do filtro divisor é aos 2.400 Hz, com crossover ativo de 2 vias gerido por DSP.
Pode-se cozinhar (e comer) uma refeição ligeira com este som em fundo; pode-se até parar a meio da sala e atender o telefone. O que se perde em geometria fixa do palco sonoro, ganha-se em espaço e liberdade.
Caixa de música
Ora, estas são especificações de colunas a sério. Portanto, a VEGA não é apenas uma peça de mobiliário de estilo dinamarquês. É uma caixa de música moderna, que integra uma plataforma DSP com gestão de streaming por BluOS e tudo o que isso implica:
- No capítulo wireless, a VEGA corre BluOS — a plataforma da Lenbrook que já conhecemos da Bluesound, NAD, etc.
- Suporta Tidal Connect, Qobuz, Spotify Connect, TuneIn, Radio Paradise, MQA, AirPlay 2, Bluetooth com AAC, aptX e aptX HD.
- Entradas físicas: HDMI ARC, RCA analógico estéreo, ótica digital, USB para disco externo e Ethernet.
- Saídas: subwoofer (com filtro low-pass a 120 Hz) e USB 5V/1A.
- Há ainda cinco botões programáveis.
- Não tem USB-B para ligar a um DAC externo e a saída de sub não é dupla. Mas não se pode exigir mais quando custa só 2.999 €.
Por 3 mil euros, é possível comprar um sistema com componentes separados e um bom par de colunas DALI. Mas perde-se aquele ar discreto de burguesia dinamarquesa…
A comparação que salta aos olhos é com o Naim Mu-so 2. Mas a VEGA tem uma alma diferente: é mais sóbria, mais dinamarquesa, dá menos show-off (no grave) e, como hei de dizer, é mais musical, pronto, já disse. Sobretudo, se explorar as funções DSP:
- Adaptive Stereo Enhancement (ASE)
- Analisa em tempo real o sinal estéreo de entrada e adapta-o para, a partir de uma única caixa, criar uma apresentação estéreo mais ampla.
- Adaptive Orientation Adjustment
- Um sensor detecta se a coluna está deitada, vertical ou montada na parede. Além disso, existem três modos de colocação que ajustam a saída do conjunto de altifalantes traseiros de acordo com a localização: em espaço aberto, junto a uma parede ou encostada num canto.
E depois há aquele pormenor delicioso: o pequeno mostrador circular OLED gira conforme a orientação da caixa. Ponha-a em pé, o mostrador gira a condizer. Deite-a; o mostrador volta a girar. Enfim, nada que não tenhamos todos já no telemóvel, mas a DALI esforçou-se por agradar também aos jovens.
Antes de procedermos à audição e às suas nuances, alguns comentários prévios. O mostrador podia ser maior e lê-se mal à distância. Mas, claro, a app BluOS resolve essa questão. No modo free space, o conjunto de altifalantes traseiros gosta de se exibir e o som frontal perde foco.
Audições
Brian Eno — ‘An Ending (Ascent)’ (Apollo: Atmospheres and Soundtracks)
Toda a faixa é, em si mesma, uma paisagem: um sintetizador cujo som se expande e contrai, planando sem urgência nem imagem fixa. Aliás, todo o disco foi composto para ser ignorado pelo ouvinte — é o verdadeiro conceito de música ambiente.
O que a VEGA faz aqui é notável porque não se vê: o ASE não tenta colocar o som num lugar específico, espalha-o pela sala toda. Quem se desloca da sala para a cozinha é imediatamente ‘apanhado’ pelo sortilégio da música. O grave profundo que sustenta a harmonia é discreto e quase subliminal. Num sistema convencional, o grave desvanece-se e morre se nos afastarmos dois metros da sweet spot; aqui anda atrás do ouvinte como um cão atrás do dono. Por todo o lado.
Nils Frahm — ‘Says’ (Spaces)
‘Says’ também abre com uma pulsação de sintetizador que se vai acumulando em camadas até obter uma cadência tribal, com uma longa cauda de reverberação, apoiada por texturas de percussão eletrónica que nunca se enquadrariam numa imagem estereofónica clássica.
Pode-se cozinhar (e comer) uma refeição ligeira com este som de fundo; pode-se até parar a meio da sala e atender o telefone. O que se perde em geometria fixa do palco sonoro, ganha-se em espaço e liberdade.
Arvo Pärt — Tranquility Violoncello. ‘Spiegel im Spiegel’
Aqui temos um triângulo amoroso harmónico: piano, violoncelo e…silêncio, que também é som. Num sistema convencional, o piano fica à esquerda, as cordas à direita e o ouvinte olha para a imagem como se fosse um quadro holográfico.
Na VEGA, as fontes sonoras quase se dissolvem na vaga ressonância que preenche o espaço entre as notas. O piano está lá, o violoncelo também. Mas a música parece flutuar no ar.
Assim, se alguém entrar na sala, não interrompe a audição, pois não corta a relação física com o som, sendo também essa pessoa envolvida pela música sem a perturbar. E sem nos perturbar.
Impressões gerais de audição
A VEGA reproduz música ambiente de alta qualidade. Se é um daqueles audiófilos que se senta na ‘sweet spot’ e não se mexe mais para não perder o foco porque se compraz na reprodução de um ‘palco sonoro’ estável e geometricamente audível, a VEGA não é para si.
Se a sua praia é ouvir música pela sala toda, enquanto anda de um lado para o outro, sem se preocupar em obter uma ‘imagem estereofónica’ da escola audiófila ortodoxa, a VEGA é a sua companhia ideal.
Eu acho que é mesmo isso que a define: não obriga o ouvinte a participar ativamente no ato de audição, sentado imóvel numa cadeira; dá-lhe liberdade de movimentos, enquanto escolhe a música por si. Não é um sistema – chamemos-lhe assim – para audiófilos de régua e esquadro.
Tudo o que acontece com a VEGA fica com a VEGA…
Felicidade conjugal
Eu sou de uma tribo antiga que prefere sempre componentes separados para ouvir música, sobretudo as colunas. Mas se fosse jovem e vivesse num T-0 com uma esposa de forte personalidade estética, acho que a VEGA contribuiria para a nossa ‘Felicidade Conjugal’ todos os dias do ano. Pois, lá em casa, tudo o que acontece com a VEGA fica com a VEGA…
Você vai adorar. A sua mulher também. O problema agora vai ser justificar as colunas enormes que estão na sala de estar. Será que precisa mesmo delas?
A DALI não inventou a categoria. Mas soube tratá-la com dignidade e estilo. Recomendado.
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