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NAD M33 V2 – BluOs Streaming DAC Amplifier

NAD M33 V2 Cover.jpg

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Ainda me lembro do meu primeiro NAD, de aspeto militar e cor verde-azeitona e eficaz como um Comando. Poucos watts e muito poder de fogo. Foi, aliás, com um NAD que me iniciei como crítico de áudio, num artigo intitulado: 'Som DaNADo!'.

A Master Series manteve esta filosofia de eficácia e pragmatismo. Mas o M33 V2 é agora um produto de luxo, com uma robusta caixa de alumínio maquinado, com tampa ventilada, um grande botão de volume e um ecrã tátil a cores de sete polegadas que lhe dá acesso direto a todas as funções.

Nota: o botão de volume é uma maravilha mecânica, de rotação suave, que atua a 32 bits no domínio digital.

Num único chassis, a NAD oferece tudo o que se exige a um sistema moderno: amplificador integrado, pré-amplificador, DAC, streamer, pré de phono MM/MC, amplificador para auscultadores, ligação HDMI eARC e correção acústica Dirac Live. O preço, claro, não tem NADa a ver com os preços a que nos habituou no passado: 6.699 euros!

Quem sai aos seus

O V2 é uma evolução do M33 original. Por fora, é basicamente igual. Com 435 mm de largura, 133 mm de altura e 396 mm de profundidade, o M33 V2 ocupa o espaço tradicional de um componente hi-fi standard.

Pesa apenas 9,7 kg, o que poderá desiludir quem ainda avalia amplificadores ao peso, porque funciona em Classe D, com fonte de alimentação comutada, e não precisa de um enorme toroidal, não porque a NAD tenha poupado na qualidade de construção.

Até na qualidade das fichas se vê que o luxo não é apenas cosmético, embora o comando remoto de secção trapezoidal seja mais robusto do que funcional, obrigando-me amiúde a regressar ao ecrã ou à aplicação BluOS. A aplicação permite selecionar fontes, criar predefinições, gerir zonas, procurar música em vários serviços e controlar as definições do M33 V2. O comando tem apenas as funções básicas.

O BluOS continua, aliás, a ser um dos principais argumentos do M33 V2. Suporta áudio via rede, com serviços como Qobuz, Tidal, Spotify, Amazon Music e Deezer, rádio na Internet, AirPlay 2, Roon e sistemas multiroom BluOS. A BluOS não inclui UPnP, logo não é compatível com uma das minhas aplicações preferidas, a mConnect. Também não permite utilizar o JRiver ou o Audirvana, pois não tem ligação USB para PC. Mas o M33 V2 é acessível por rede via Roon, podendo ser configurado como decoder/renderer MQA e com máxima resolução em PCM de 24bit/192kHz.

Devo ser um dos poucos que ainda acham que a Tidal soa melhor do que a Qobuz; por isso, ouço quase sempre Tidal, Tidal Connect ou Tidal via Roon.

Nota: o M33 V2 não é compatível com ficheiros DSD. Tem de os converter primeiro para FLAC.

Construção modular

Na secção analógica, oferece apenas uma entrada RCA e outra entrada balanceada XLR, além da entrada phono. A secção digital é mais generosa: duas entradas coaxiais, duas óticas, uma AES/EBU, HDMI eARC, Ethernet, Wi-Fi e uma porta USB-A para unidades de armazenamento e periféricos compatíveis.

Existem ainda as saídas de pré-amplificação XLR/RCA, duas saídas independentes para subwoofers, uma saída para auscultadores e Bluetooth bidirecional aptX HD, que tanto recebe música como a pode transmitir para auscultadores sem fios. Dispõe ainda de duas placas MDC — Modular Design Construction — destinadas a futuras expansões. A Alexa e a Siri também foram convidadas para a festa, mas não falei com elas.

Nota: O M33 V2 não possui microfones nem responde sozinho a comandos de voz. Mas pode ser controlado por voz por meio de dispositivos externos compatíveis: Amazon Echo com Alexa ou um iPhone, iPad ou HomePod com Siri. A integração com o Siri faz-se por meio do AirPlay 2 e da aplicação da Apple; a integração com o Alexa utiliza a BluOS Voice Control (Blue Voice), oficialmente disponível apenas em inglês.

MQA renasce

Para a amplificação, a NAD optou por módulos Eigentakt de segunda geração, feitos por encomenda, um novo DAC ESS Sabre ES9039PRO, uma secção ADC igualmente renovada e as tecnologias FOQUS e QRONO, desenvolvidas pela MQA Labs.

Sim, já sei. Há quem fique com urticária só de ouvir falar em MQA. Contudo, eu, Peter McGrath, da Wilson Audio, e Robert Harley, da TAS, continuamos a achar que há algo mais na MQA do que apenas a alegada compressão e perda de resolução, algo que tem a ver com a precisão temporal. Mas isto é como na política e nas redes sociais: quem cai em desgraça, tarde ou nunca se levanta. Nada temam. A tecnologia MQA de base não é utilizada pela NAD.

FOQUS e QRONO não são a MQA com um novo nome. São tecnologias de processamento aplicadas à conversão analógica-digital e digital-analógica.

O FOQUS atua durante a digitalização de fontes analógicas, com o objetivo de reduzir erros de temporização e artefatos de conversão relacionados com os filtros; o QRONO otimiza a resposta transitória durante a conversão de PCM para analógico, atuando nos filtros do DAC e na modulação de ruído, com o objetivo declarado de reduzir o chamado ‘ringing’ nos testes de resposta ao impulso.

Pelo menos, elimina o pré-ringing, que a NAD considera mais prejudicial do que o pós-ringing. Aliás, qualquer filtro Minimum Phase Slow produz exatamente o mesmo efeito, mas enfim. E não é possível optar por filtros diferentes, como os Linear Phase, disponíveis na maioria dos DACs modernos.

Contudo, esta é uma discussão quase académica. Para o leitor, o que importa é saber que, com esta arquitetura digital, as fontes analógicas são previamente convertidas para o domínio digital. E isso acontece nas entradas de linha e também no sinal proveniente do gira-discos. A entrada phono do M33 V2 aceita células MM e MC, inclui um filtro infrassónico e apresenta uma precisão RIAA anunciada de ±0,2 dB entre 20 Hz e 20 kHz.

Um monstro de força

Na ficha técnica, o M33 V2 debita mais de 200 W por canal a 8 ohms e 380 W a 4 ohms, com ambos os canais em funcionamento. A potência dinâmica atinge 560 W a 4 ohms. Mas, na audição, não soa apenas como força bruta. A corrente de pico anunciada é igual ou superior a 25 A e o fator de amortecimento é superior a 800 (!). Foi você que pediu um grave tenso e articulado?

A distorção harmónica permanece abaixo de 0,003% entre 1 e 200 W. É ainda possível ligá-lo em ponte, utilizando cada amplificador como um bloco monofónico de 700 W por canal a 8 ohms para amplificar colunas de grande porte em espaços amplos.

A pureza dos Purifi

Os módulos Purifi Eigentakt estão entre as soluções de amplificação com os melhores resultados laboratoriais atualmente disponíveis. Nenhum outro amplificador, de qualquer classe ou topologia, os consegue bater. Isto significa que, no papel, o M33 V2 é totalmente transparente. Ou seja, limita-se a amplificar o sinal sem introduzir coloração.

Se não gosta do que ouve, a culpa é da fonte, das colunas ou, muito provavelmente, da sala. Mas até nisso a NAD pensou, ao incluir o processamento Dirac no já de si vasto pacote de funcionalidades do M33 V2.

Se não gosta do que ouve, a culpa é da fonte, das colunas ou, muito provavelmente, da sala.

Notas de audição

Do mesmo modo que sentimos a falta da ‘madeira’ nas colunas open-baffle, de-painel ou com caixa de alumínio, também sentimos a ausência de ‘distorção’ ou ‘coloração’ em amplificadores como o NAD M33 V2, cujos níveis de ruído e distorção levam equipamentos de medida como o Audio Precision ao limite de resolução.

Talvez porque fomos educados por gurus do áudio que, ao longo da vida, nos ensinaram que a distorção de segunda harmónica das válvulas é benéfica para a saúde auditiva. É quase como uma crença religiosa que a ciência desmente. Contudo, eu sou um desses crentes. Mea culpa.

Assim, quando liguei o M33 V2 a um par de Sf Concertino, que conheço há 30 anos, achei o som algo insípido, apesar dos 200 W declarados. Por insípido não se entenda ‘fininho’ ou débil, porque o grave está lá todo em tensão e extensão, nos limites de uma coluna monitora de 2-vias.

Entretanto, liguei a saída de prévio do M33 V2 ao LAB12 Mighty, de apenas 10W e o som ganhou o corpo harmónico (distorção?) a que estou habituado, ao mesmo tempo que perdeu o poder e a dinâmica da Classe D. Não se pode ter tudo.

Convenhamos que o gosto pessoal do crítico não é p’raqui chamado. A análise deve ser feita a frio e sem preconceitos audiófilos. Durante um mês, ouvi o M33 V2 (sem Dirac) com todos os géneros musicais, sobretudo via streaming e CD. A maior virtude do M33 V2 — e talvez o seu único 'defeito' — é a sua desarmante honestidade.

Imunidade total

O M33 V2 é imune aos preconceitos audiófilos. É surpreendentemente macio (talvez por efeito da pendente precoce do filtro digital MQA), contrariando a ideia errada de que a Classe D é agressiva e pouco musical. Mesmo quando provocado, o M33 V2 respondeu sempre com diplomacia – e apenas com a força necessária, ou proporcional, como se diz em linguagem militar.

A maior virtude do M33 V2 — e talvez o seu único 'defeito' — é a sua desarmante honestidade.

Rolling Stones ao vivo no palco

Assim, em vez de abrir as hostilidades com a habitual música barroca, tão fácil de agradar aos ouvidos, e prosseguir depois com uma lista eclética de 10 discos raros só para exibir aos leitores a excelência da minha playlist, optei por atacar o M33 V2 apenas com uma banda de rapazes que foram ídolos da minha juventude: os Rolling Stones, no seu último álbum, ‘Foreign Tongues’.

O álbum Hackney Diamonds não passou de uma prova de vida, comparado com Foreign Tongues. Os Stones divertiram-se durante um mês nos Metropolis Studios, em Londres, na companhia ilustre e discreta de Paul McCartney (tocou baixo em Covered In You) e Steve Winwood (teclas), recorrendo a uma vasta paleta de ritmos: do funk ao country.

Na balada ‘Ringing Hollow’, o melhor tema do álbum, até apostaram na intervenção política, revelando o atual desencanto com os EUA, que lhes deram tudo no passado (os blues, por exemplo), pondo mesmo em causa a própria falta de autoridade moral e as tendências autoritárias e imperialistas. Enfim, bater no Trump vende; investir em Wall Street rende…

E Jagger até se dá ao luxo de interpretar, de forma quase teatral, o que Amy Winehouse cantou no recato do confessionário, com um copo na mão: ‘You Know I’m No Good’. Amy deve ter dado uma volta no túmulo.

Mas por que razão me refiro aqui apenas a ‘Foreign Tongues’, quando terei ouvido dezenas de discos para esta análise auditiva? Porque responde a todas as suas dúvidas. Ficou curioso?

Os Stones à lupa

O M33 V2 não transforma os Stones num quarteto de música de câmara, claro. Mas permitiu-me ouvir uma banda diferente da habitual, ou melhor, permitiu-me perceber com mais clareza aquilo que, afinal, sempre lá esteve.

As vozes deixaram de formar uma massa coral indistinta e, pasme-se, é quase possível perceber tudo o que Jagger canta, identificar com facilidade as vozes de Mick Jagger e Keith Richards, seguir as harmonias, detetar as dobragens vocais e reconhecer a entrada de cada voz pela textura, pela colocação no espaço e até pela forma como cada sílaba é atacada. Até o falsete de Jagger em ‘Jealous Lover’ soa bem.

Em ‘Some of Us’, a voz cansada de Keith não se limita a soar mais rouca: surge fisicamente isolada, com outra respiração, outro peso e outra relação com o microfone. E com a vida.

McCartney no baixo

O mesmo aconteceu com os baixos. Em ‘Never Wanna Lose You’, Darryl Jones desenvolve uma linha rítmica móvel e musculada; em ‘Covered in You’, Paul McCartney desenha uma linha de baixo deliberadamente simples, rápida e incisiva.

Numa primeira audição, a produção de Andrew Watt (que também participa nos coros) aproxima bastante os dois instrumentos. O M33 V2 permitiu-me ouvir essa semelhança tímbrica, mas também aquilo que os distingue: Jones apoia e segue a secção rítmica; McCartney empurra-a para a frente, com um ataque mais seco e uma articulação quase punk.

E depois há ‘Hit Me in the Head’, ainda com Charlie Watts na bateria, pouco tempo antes da sua morte. A diferença em relação a Steve Jordan não está apenas no poder do impacto, mas também no sentido rítmico. Watts controla o ritmo com precisão metronómica, Jordan é muito mais ousado e musculado.

Mas os 200 W por canal da amplificação Eigentakt de segunda geração não servem apenas para tocar mais alto. Dão ao M33 V2 a capacidade de reproduzir a explosão dos refrões, o impacto do pedal no bombo e a violência dos riffs, sem comprimir o palco e com apenas um ligeiro endurecimento do agudo, que pode ser corrigido com EQ.

O M33 V2 não domestica os Rolling Stones. Limita-se a acender a luz no estúdio — e deixa-nos espreitar para ver quem está a tocar o quê. E como. Acho que estou a habituar-me a esta limpeza no som. É como uma lavagem purificadora dos meus pecados audiófilos.

Faça este exercício com os discos de que mais gosta. Vai descobrir coisas que não sabia que estavam lá.

NAD M33 V2 Cover


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